Transparência

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Por Max Gehringer

Em empresas, transparência tem esse nome porque a boa relação é como um vidro plano: permite enxergar de ambos os lados. A Direção sabe o que se passa na cabeça dos funcionários, e os funcionários sabem quais são os planos da Direção. Transparência é uma questão de ética, e de compromisso com a verdade. E é exatamente por isso (ou pela falta disso) que a classe política ganhou a fama que carrega.

Quando eu tinha meus vinte e poucos anos, eu trabalhava em uma empresa, e estava mais ou menos feliz nela. Mais ou menos, porque a felicidade absoluta não existe no mercado de trabalho. Mas eu estava mais feliz que infeliz. Um dia, me ligou um head hunter. E me perguntou se eu estaria interessado em participar de um processo de seleção em outra empresa. Como todo head hunter, ele não precisou de mais que cinco minutos para me convencer de que aquela era a grande chance de minha carreira. Além disso, ele me disse, seria apenas um primeiro contato, um bate papo sem maiores compromissos.

Como não tinha nada a perder, eu fui. Fiquei impressionado com a empresa, com o gerente, com o cafezinho e com o ambiente tranqüilo. E concordei em continuar participando do processo. Aí, no caminho de volta, me bateu aquela dor na consciência. Estaria eu traindo a confiança de minha empresa atual? Deveria eu chegar e, imediatamente, relatar o que tinha acontecido? Sem dúvida, eu disse para mim mesmo. Afinal, o que é certo é certo. Mas, e se eu fizesse isso, e a empresa reagisse mal? E, talvez, até me despedisse? Aí, eu, que tinha um emprego na mão e um voando, correria o risco de ficar de mãos abanando.

Assim, dividido entre ser correto, e o risco de ser correto, eu cheguei. E fiquei sabendo que 15 colegas haviam sido dispensados naquela manhã. Uma simples medida de redução de custos, que não tinha nada a ver com o desempenho dos demitidos. Eu perguntei a meu chefe se não teria sido possível, pelo menos, alertar os funcionários de que os cortes estavam para acontecer, para que eles se preparassem. E meu chefe me perguntou se eu estava louco. Essas coisas, ele disse, tinham que ser feitas sem contemplação, e o mais rapidamente possível, para evitar complicações.

Mesmo assim, eu contei para meu chefe sobre a entrevista, e informei que pretendia continuar participando do processo. A partir daí, vivi os piores 30 dias de minha vida profissional. Imediatamente, a empresa decidiu pela contratação de meu substituto, o que significava que, se eu não conseguisse o novo emprego, seria dispensado. Pior, durante esse tempo fui encostado, e tratado como traidor. O que eu não sabia é que a empresa não estava contratando ninguém para meu lugar. Tudo era um jogo de cena para que eu desistisse do processo. Só quando pedi a conta, é que fiquei sabendo da verdade.

Aí, respirei aliviado. E orgulhoso de mim mesmo. Eu tinha sido transparente, embora a empresa tivesse sido opaca. E foi a última vez na vida que fiz isso. E não recomendo que alguém faça. Transparência continua sendo algo louvável, mas só funciona se for uma avenida de mão dupla. Transparência unilateral é ingenuidade. No plano espiritual, é dando que se recebe. No plano corporativo, o exemplo vem do alto. É recebendo que se retribui.

 

max01Max Gehringer é comentarista da Rádio CBN e do Fantástico, na TV Globo. Administrador de Empresas, foi Presidente da Pepsi-Cola Engarrafadora e da Pullman/Santista Alimentos. Conhecido por seus artigos em revistas como Época, Exame e Você S/A. É autor de vários livros, dentre eles “Comédia Corporativa”, “Emprego de A a Z” e “Pergunte ao Max”.

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