Quatro perguntas essenciais para quem busca orientação profissional

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Por Adriana Ricci

Se você chegou a este texto é provável que se interesse por carreira ou que já tenha pensado em buscar ajuda para este processo. E se você já buscou ou pensa em buscar ajuda para esta questão, já deve ter percebido que vivemos o que Bauman* chama de “boom do aconselhamento​”. Explico: nos últimos anos, nota-se uma explosão de profissionais especialistas no tema carreira e que, sendo assim, estariam aptos a ajudar qualquer pessoa que esteja em aflição neste terreno.

Ajudam a explicar esta explosão e a produção brutal de conteúdo a respeito do tema, a sensação de fragilidade e insegurança que bate à nossa porta ou habita nossos pensamentos cotidianos diante de um mundo e formas de se relacionar em notável transição.

Posto isso, como escolher quem te ajudar?

Listamos as práticas mais comuns de ajuda, com suas vantagens e desvantagens para ajudá-lo na hora de escolher quem te ajudar a escolher.

Ah! Adoraríamos que você nos contasse, caso saiba de algo que conhece e que ficou fora da nossa lista.

Autoajuda

Livros: a lista de livros é farta e demonstra o quão pop se tornou a questão. Como o próprio nome diz, neste formato, algum conhecimento, história de sucesso ou método para você fazer por conta própria pode ser encontrado.  

Vantagens: fácil acesso.

Desvantagens: S​e você não estiver com seu “filtro crítico” ligado, pode passar a vida reproduzindo as técnicas ensinadas e isso pode te levar a algum lugar, inclusive o mesmo em que você estava antes de ler o livro.

Explicamos: as saídas para questões de carreiras passam por sua identidade, seu jeito de ver e fazer no mundo, que não necessariamente combinam com o que o autor trabalhou para te oferecer no livro. Por serem produzidos para o público em geral, precisam garantir uma linguagem e aplicabilidade de baixa complexidade e ampla aplicabilidade. Isso pode deixar de fora questões singulares que compõem a sua questão de carreira, colocando em xeque a efetividade das técnicas e conselhos propostos. Um ponto importante para pensar: será que as técnicas nascidas, por exemplo, nos Estados Unidos, se encaixam para o atual contexto brasileiro de crise?

Apoio na rede de contatos (custo zero ou baixo custo)

 CONVERSA DE BOTEQUIM: ​f alar sobre o que você está passando é quase natural numa roda de amigos e amigos-conselheiros podem ajudar a aliviar momentaneamente a tensão causada por preocupações ou problemas relacionados à carreira.

Vantagens: é divertido. Pode te ajudar a perceber que o “problema” não é exclusivamente seu, mas que muitas pessoas ao seu redor passam por situação parecida.

Desvantagens: ​sabedoria popular – se conselho fosse bom, não se dava, vendia. (É o que veremos em algumas práticas descritas abaixo).

MENTORING: uma pessoa que tenha passado por problemas ou situações semelhantes às suas e pode te ajudar com aconselhamento de soluções ou questionamentos a partir da experiência pessoal vivida por ela. É comum que ex-chefes ou pessoas com mais experiência (de vida ou profissional) sejam escolhidas para este papel. Avalie a real disponibilidade da pessoa escolhida para que seja um processo sério e disciplinado.

Vantagens: estreitamento da relação com alguém que você preza; compartilhamento de conhecimento a custo zero.

Desvantagens: o que funcionou para esta pessoa pode não funcionar para você; se não for algo estruturado, tende a perder o objetivo maior de ajuda.

Ideia: Livros podem ser ferramentas para formatar um processo de MENTORING, caso a dupla não esteja conseguindo estruturar com disciplina este processo. Você traz os conceitos do livro para discussão e divide com seu mentor, evitando que você se mantenha num ciclo de pensamento solitário.

Apoio especializado (custo variável e raramente sem custo)

ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL: também conhecida como Orientação Vocacional. É uma prática associada historicamente a adolescentes em fase de escolha profissional, ou, mais especificamente, escolha da faculdade. Bastante comum em escolas, mas também realizada em consultórios particulares de psicólogos (embora não seja prática exclusiva deste profissional). O objetivo do processo é consolidar (a partir de diferentes escolas de pensamento e metodologias) um autoconceito, ou seja, um conceito que sirva para você balizar suas escolhas profissionais (podem ser preferências, valores, aptidões, conhecimentos, crenças, limitações). Num segundo momento do processo, o objetivo é criar com o cliente um projeto que integre questões de auto referência e identidade com possibilidades de aplicação no mundo do trabalho.

Vantagens: integra aspectos importantes das questões de escolha profissional, (internos e externos), contribuindo para uma autonomia maior de escolha diante dos desafios profissionais.

Desvantagens: depende de um bom diagnóstico inicial para definir se as questões trazidas por quem busca o processo não seriam melhor trabalhadas por outras práticas.

ORIENTAÇÃO OU ACONSELHAMENTO DE CARREIRA: o​ termo é mais comumente aplicado ao processo de orientação desenvolvido com adultos, que possuem uma trajetória de experiências laborais ou uma carreira (algo mais raro de acontecer com adolescentes da classe social com mais fácil acesso a este tipo de serviço). Trata-se da prática que se propõe a criar com o cliente um projeto que integre questões de auto referência e identidade com possibilidades de aplicação no mundo do trabalho. (Sim, o objetivo é o mesmo exposto no tópico anterior, com a diferença de elementos a se levar em conta para um adolescente e um adulto).

Vantagens e Desvantagens: A​ s mesmas expostas no tópico Orientação Profissional.

COACHING: processo de desenvolvimento de competências. São várias as metodologias e escolas de pensamento ligadas às instituições certificadoras destes profissionais, que podem atuar no campo de carreira. Diferentemente do mentoring, o papel do coach não é aconselhar, mas promover que o coachee chegue às respostas e soluções a partir das técnicas que apoiam o processo. Aqui, atenção deve ser dada à proposta real e possível do processo: desenvolver competências que te levem de um estágio A um estágio B, definidos por coach e coachee.

Vantagens: o​ processo (quando bem feito) tem clareza de objetivos e trabalha com a aplicação imediata dos recursos atuais que o coachee possui ou vai desenvolver para realizar a mudança que deseja ou tomar a decisão pretendida. Desvantagens: p​ elo fato de o processo estar ancorado em recursos atuais e conscientes, a sustentabilidade das mudanças pode ser prejudicada pela natural transitoriedade da vida. Resumindo: como numa receita, qualquer alteração pode fazer desandar o bolo. Outra desvantagem é que, por ser uma profissão relativamente nova, o movimento de regulamentação da atuação está ainda em construção.

 PSICOTERAPIA OU ANÁLISE: prática exclusiva de psicólogos (psicoterapia) ou psicanalistas (análise), são processos que partem dos temas considerados pelos pacientes como problemas ou incômodos. Sendo assim, o tema carreira poderá ser trabalhado, sempre privilegiando a dinâmica de funcionamento da pessoa em tratamento, com maior ou menor interlocução prática com o meio, a depender da linha de pensamento do profissional responsável pelo processo.

Vantagens: t​ rata-se de uma prática extremamente compreensiva dos vários aspectos que influenciam a questão e de como a pessoa se articula para conseguir suas saídas frente a este incômodo.

Desvantagens: não é possível estabelecer um tempo de solução para o “problema”, nas maiores partes das linhas abordagens, o que costuma desagradar os mais apressadinhos.

 

4 perguntas para se fazer ao profissional que pretende contratar

Preparamos quatro questões que podem auxiliar o seu processo de escolha do profissional que vai te ajudar. O objetivo destas questões é garantir que você avalie se o profissional tem uma visão de mundo bem definida e se esta é compatível com o que você acredita (como você pôde ver, existem diversas linhas de pensamento embasando a prática na área).

  1. Por que entende que pode me ajudar com seus serviços?
  2. Quais os limites do seu trabalho?
  3. Como você entende carreira? O que é isso para você?
  4. Você acredita que eu sou exclusivamente responsável pelo sucesso ou fracasso na minha vida profissional? Se não, que outros fatores entende que estão envolvidos?

 

Regrinhas de ouro:

  1. Não acredite em ninguém que afirme que a questão é simples (não porque não possa ser, mas porque nenhum profissional pode afirmar isso antes de te conhecer. O máximo que ele pode afirmar inicialmente é que o método de trabalho dele é simples).
  2. Desconfie de qualquer profissional que prometa transformar círculo em quadrado. De qualquer profissional que te dê garantia de felicidade, a menos que você ainda acredite em mágica, coelhinho da Páscoa ou Papai Noel. Boa sorte em sua busca!

 

 

Por Adriana Ricci. Sócia-fundadora da T​RID – Trabalho e Identidade.​ Psicóloga especializada em Orientação Profissional e de Carreira pela USP, Coach pela SBC e Psicanalista pelo IPLA. Possui sólida experiência em Recursos Humanos, sempre ligada aos processos de vanguarda em desenvolvimento e gestão de pessoas de grandes empresas multinacionais, além de atendimento particular em orientação profissional e de carreira.

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