O Líder como Anfitrião

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Por James Allen

É possível liderar e ser liderado ao mesmo tempo? O líder pode ser a pessoa mais quietinha na sala; até invisível? O que acontece quando não existem regras pré-definidas para as pessoas que você está liderando? O resultado é caos ou harmonia?

Estamos numa época em que os significados de ser líder e de liderar estão em mudança. Por isso, eu gostaria de compartilhar com vocês minha experiência da rede Art of Hosting (AoH), a qual eu me associei após participar em um ‘encontro’ aqui no Brasil. Num momento em que muitas organizações estão enfrentando o desafio de criar estruturas de gestão menos hierárquicas, a abordagem de AoH nos sugere que são aqueles líderes que têm a capacidade de escutar e aproveitar das perspectivas distintas dentro do grupo, e de fortalecer as conexões entre pessoas e organizações através do diálogo, que poderão aproveitar o melhor das pessoas que estão sendo lideradas.

Em janeiro de 2013, a 14o edição da AoH Brasil tomou a forma de um encontro de cinco dias, numa pousada linda e arborizada em São Roque, 70km de São Paulo. Se chama ‘encontro’, em vez de treinamento ou capacitação, porque os participantes aprendem com sua participação ativa numa série de oficinas onde se aplica técnicas de facilitação de grupos como World Café e Collective Story Harvesting. Os participantes têm várias oportunidades para assumir a liderança e mediar essas dinâmicas que têm como objetivo o aproveitamento e a colheita de uma ‘inteligência coletiva’, ou seja a sabedoria e conhecimento de grupo como tudo e não de uma série de perspectivas individuais.

Desta forma, os participantes se tornam mediadores do próprio espaço, com responsabilidades para liderar cada momento com o intuito de receber e colher conversas significativas’. Para uma conversa ser significativa, os participantes devem buscar escutar de forma ativa e falar com intento. Portanto, o ponto de partida é a relação que o indivíduo tem com ele mesmo. O silêncio e técnicas de meditação também fazem parte da caixa de ferramentas da AoH, pois a capacidade de escutar não só os outros, mas também você mesmo, representa uma sina que non de boa liderança.

A relação entre o indivíduo e o outro dentro do grupo se estabelece, num primeiro momento através da forma mais antiga de diálogo: o círculo (é o círculo que gosto de usar, sempre que possível, nas minhas aulas na The School of Life). No meio do círculo, não tem fogueira, mas tem o ‘propósito’ do grupo, ou seja, a questão ou o desafio que o coletivo quer endereçar. É preciso investir muito tempo na formulação e na estruturação desta pergunta, para garantir que as conversas e os debates que seguem estejam coerentes e significativos. É aqui que o ‘anfitrião’ tem um papel importante na redação de uma pergunta potente que inspira e no mesmo tempo é prática.

O encontro no círculo é seguido por trabalhos em grupos menores de entre quatro e seis pessoas. Um grupo deste tamanho é suficientemente grande e diversos para poder aproveitar de perspectivas diferentes, sem ser tão grande que se torna inviável de ter uma conversa significativa. É um modelo que reflete o que está acontecendo dentro de muitas empresas onde células auto gerenciadas se juntam para realizar um processo ou entregar um resultado específico: Google (“os projetos sempre começam com um pequeno grupo de pessoas que avançam” – Larry Page) e o sistema de gestão Amoeba de Kyocera são dois exemplos.
O desacordo dentro do grupo é considerado como algo saudável que inclusive deveria ser promovido. Como o guru de administração Peter Drucker relatou, as melhores decisões se baseiam no choque de visões conflituosas, o diálogo entre dois pontos de vista, a escolha entre dois julgamentos distintos. A primeira regra do processo de fazer uma decisão é que não se faz uma decisão sem de antemão ter divergência. De fato, chegamos as nossas conclusões e boas decisões (convergência) apenas após o tempo de divergência e discordância, em que as dúvidas são respondidas com o uso de boas perguntas. Um bom anfitrião sabe cutucar e questionar, e está pronto para abraçar diferenças como parte do processo de fazer decisões coletivas.

Nesse contexto, liderar significa aceitar o caos que surge quando diferentes pessoas trocam suas opiniões numa mesma mesa. Na sua forma mais pura, um processo coletivo de tomada de decisões chega a ser quase anárquico, onde os grupos se organizam e cada pessoa contribui do jeito que consiga, ou seja ‘os grupos se agrupam’ como acostuma dizer, de voz grave, meu sogro. A Teoria de Diálogo do físico David Bohm propôs que um diálogo significativo de indagação deveria ser sem regras e sem agenda e não se pode escolher os participantes, mas são eles que devem se oferecer (obs.: essa abordagem, sem uma boa liderança e sem uma inteligência por trás não sempre funciona, como observa meu amigo Augusto).

Essa abordagem para aprendizado grupal – livre, aberto, autogerido – pode ser extremamente enriquecedora, mas, ao mesmo tempo, pode gerar angústia. Os participantes devem aceitar uma nova forma de aprender que envolve a observação, a experiência, a aceitação de diferenças e a admissão de erros. Deste modo, o encontro da AoH também representa uma viagem emocional onde ansiedade podem surgir e se soltar. Em nosso grupo, alguns participantes – talvez uma meia dúzia, principalmente os que trabalhavam em grandes empresas – tinham vindo com suas próprias expectativas sobre o que imaginavam levar do encontro e depois do terceiro dia, começavam a questionar os preceitos da semana: “onde está o manual?”, perguntavam; “por que não houve uma sistematização das informações?”. Em um determinado momento, se ameaçava uma revolta, mas os nossos anfitriões seguravam firme, reconhecendo e aceitando essas preocupações, sem desviar de uma visão que cada participante tinha que contribuir e levar do encontro o que quis.

É nesses momentos que a ‘arte’ de liderança se revela, quando os anfitriões têm que perseverar perante esses períodos de caos que surgem durante a prática de dinâmicas muito soltas, tais como Open Space. Em horas como essas, um líder eficaz procurará o mais que possível atuar por trás, um ator quase invisível cuja presença não influencia a forma em que o grupo escolhe operar; mas ela tem que estar muito atenta o tempo todo, e observar não apenas o que foi dito, mas também o que foi feito e como – sentindo a energia do grupo. Cabe a ela saber a hora de assumir o papel do cálice, abraçando e acalmando, e quando se tornar a guerreira, cutucando, compelindo e, sobretudo, questionando para que o grupo possa avançar.

Líderes hábeis, então, são aqueles que conseguem somar e catalisar conhecimento coletivo e diversos talentos ao redor de um propósito compartilhado, trilhando soluções que reconhecem e valorizam as vozes e os opiniões do indivíduo e do coletivo. O mantra do Isaac Newton – que poderíamos encontrar soluções singulares para nossos problemas usando análise objetivo – não vale mais; agora temos que aceitar uma visão mais diferenciada (ou quântica) do mundo, aceitando que não existe uma única ‘solução’ objetiva e que a observadora em si, com suas expectativas e intenções, influencia de forma direta a resposta.

Alkíndar de Oliveira, um especialista em teoria de comunicação, observa:
De acordo com o pensamento linear, a regra era a competição pura e simples. Os líderes de uma mesma empresa competiam entre si para provar a si mesmos, e também aos outros, sua superioridade. Sob a vigência do pensamento sistêmico, a regra é: utilizemos o diálogo para que os líderes e também os liderados se especializem em colaborar entre si, pois no complexo mundo atual descobriu-se que “a soma das partes pode ser maior do que o todo”. Quando os serviços são executados com base na competição, pode-se até conseguir bons resultados no curto prazo. Mas se pensarmos no longo prazo, a colaboração será sempre a melhor alternativa, pois, entre outras vantagens, elimina os boicotes entre os profissionais da empresa.
Mais colaboração significa não apenas menos risco de boicote, mas também pode resultar numa melhoria na tomada de decisão; melhor, até, que o indivíduo mais adepto do grupo.

Esse é o argumento principal de ‘The Wisdom of Crowds’, um livro de 2004 do jornalista da New Yorker, James Surowiecki. Para que o grupo possa tomar boas decisões, diz Surowiecki, tem que ter certas condições: a diversidade, para garantir uma multiplicidade de opiniões (o eixo de divergência – convergência que já mencionamos); descentralização, para evitar que uma única pessoa domine o processo de tomada de decisões e que cada pessoa traz para a mesa seu conhecimento (o poder e eficácia de grupos menores); e as habilidades e técnicas para sistematizar as opiniões e as afunilar numa visão coletiva (a arte da colheita).

De novo, o líder/anfitrião tem um papel importante nesse momento: tem que organizar a inteligência coletiva de tal forma que pode ser compartilhada e utilizada em etapas seguidas. Existem muitos exemplos de técnicas de colheita, inclusive vários que usam desenhos e imagens. Uma colheita bem-sucedida depende de conversas significativas que são sintetizadas para que as mensagens mais importantes sejam transmitidas e levadas em frente. Um diálogo de qualidade exige uma sistematização bem feita, pois é a colheita que ajuda o grupo em seguir em frente e realizar os próximos passos: “Se o grupo é uma forma de arte do futuro, então a convivência em grupos é um dom artístico que precisamos cultivar para colher plenamente a promessa do futuro. ” (Jacob Needleman, Centered on the Edge).

Isto posto, como poderíamos descrever as qualidades de um novo líder no contexto de um mundo ‘caótico’ onde o poder é dividido e distribuído entre os membros do grupo? Para abraçar o caos, o líder precisa estar seguro e calmo; para trabalhar contra a inércia, ele precisa ter clareza sobre seu propósito e direcionamento; ele deve confiar no grupo e na sua capacidade de encontrar suas próprias soluções, ao mesmo tempo que ele questiona e cutuca para chegar na essência do que realmente importa para o grupo; ele pode estar invisível, nunca se impondo, mas presente e sempre escutando.

James Allen é pai, tradutor, development worker e facilitador. Ele se graduou em ciências políticas e sociais da London School of Economics e possui MPhil do Institute of Development Studies da Inglaterra. Ele já trabalhou como auxiliar de cozinha, pescador, garçom, tradutor, pesquisador e faxineiro, além de ter sido guia voluntário para cegos na França e voluntário num projeto de empoderamento de mulheres no Sudão. Desde 2005, mora e trabalha em São Paulo, onde é sócio fundador da consultoria de sustentabilidade, LAB, que auxilia empresas e ONGs num ‘engajamento com sentido’ com colaboradores, comunidades e com o meio-ambiente. Antes, gerenciou projetos sociais e ambientais em vários países africanos. Desde 2014 é professor da The School of Life, em São Paulo e no Rio. James é casado com a Ana e tem dois filhos, Maya e Sasha. Quando ele não está trabalhando ou brincando com as crianças, James é apaixonado por literatura, esportes e culinária.

James Allen dará a aula Como ser um bom líder, na School of Life em São Paulo no dia 27 de agosto 2015. Inscreva-se aqui.

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