Entrevistas com James Allen: Sustentabilidade

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Esta é a segunda de uma série de três entrevistas com James Allen, sócio e diretor de inteligência do Sustainability LAB. Aqui falamos de sustentabilidade e como iniciar uma carreira nesta área.

O que é sustentabilidade?

O conceito de sustentabilidade ainda está em fase muito incipiente. Ainda se tem muitas dúvidas sobre o que realmente significa sustentabilidade ou o que é uma empresa social, que busca não apenas o lucro, mas também fazer o bem para a sociedade.

Para mim sustentabilidade é entender o conceito da interdependência entre todas as coisas. Este conceito pode parecer um pouco efêmero, um pouco vago, então vou dar um exemplo para tentar ilustrar. Estou trabalhando como consultor de sustentabilidade para uma empresa do setor agrícola. O sucesso desta (e de todas as outras) empresa(s) depende da conservação do meio ambiente. Para que a agricultura se desenvolva, precisamos de chuva. A evaporação da água da floresta Amazônica é o que gera as chuvas amazônicas, que são essenciais para a sustentação da agricultura brasileira. Então, como tudo está interconectado, preservar o meio ambiente não é uma escolha, é uma necessidade para que a empresa seja bem sucedida e possa lucrar.

A discussão sobre sustentabilidade começou com o conceito de recursos escassos, de que há recursos não renováveis que podem acabar se a gente não tomar cuidado. Depois a reflexão caminhou na direção do argumento sobre a qualidade de relações entre as partes. Se falava (e ainda se fala) muito sobre o fato de que a empresa precisa ter relações saudáveis com fornecedores, clientes, funcionários e com as comunidades. A partir dessa reflexão, sustentabilidade é relacionamento puro e simples e o entendimento de que tudo está interconectado e nenhum homem consegue existir sozinho. Às vezes se tem a impressão de que com a riqueza material, em termos financeiros, uma pessoa consegue existir sozinha. Mas isso não é verdade, somos todos dependentes uns dos outros e precisamos distribuir nossos recursos de maneira justa, dialogar e nos dar conta da nossa co-dependência.

E como esse conceito se aplica às empresas?

As empresas precisam de sociedades saudáveis para operarem, precisam de segurança, de recursos naturais, de recursos humanos saudáveis, etc. Para muitas empresas ainda o propósito único é de lucrar. Se este é o seu único objetivo, você utiliza ferramentas e meios pra aumentar o lucro mesmo que eles acabem sendo prejudiciais para a sociedade. Mas isso como propósito perdeu o sentido, lucrar por lucrar não leva a lugar nenhum. Não adianta morrer com bilhões na sua conta. Finalmente,  esta atitude nas empresas está começando a mudar. Há 10 anos não se tinha a expectativa que CEOs falassem em sustentabilidade. Hoje os CEOs que estão sendo contratados têm uma mentalidade nova, de que a sustentabilidade é essencial para o sucesso da empresa e que faz sentido que a empresa tenha uma estratégia voltada a fazer o bem. Na verdade, as empresas estão se dando conta de não se tem a opção de não ser sustentável, de que ser sustentável é a única opção.

A gente sempre deve pensar no tripé econômico, ambiental e social. O econômico deve ser meio e não fim e o valor gerado deve ser compartilhado entre todos os elos da cadeia, a partir de acordos onde todos tiveram sua voz e sua vez.

A sustentabilidade inspira muitas pessoas. Para quem quer trabalhar nesta área, como começar sua carreira?

Esta  é uma área difusa e não muito fácil de se entrar, pois geralmente as organizações já querem pessoas com experiência.

Vou contar o início da minha carreira, assim talvez o exemplo ajude outras pessoas a pensarem sobre suas possibilidades. Eu iniciei na área de International Development, ou seja, de cooperação internacional. Eu fiz mestrado em desenvolvimento sustentável e logo após o mestrado tive a sorte de ser aceito num emprego para trabalhar com refugiados, trabalhei na África num projeto de prevenção à Aids, depois vim ao Brasil e continuei nessa área de saúde. Quando fundei o LAB nossa rede de associados permitiu que atuássemos em muitas outras áreas. Nosso principio de trabalho é o dialogo a partir da materialidade, de algo significativo entre  as partes e da legitimidade e representatividade dos interlocutores. Esta construção não é mais privilégio único da “área de sustentabilidade”  é uma nova forma de se relacionar, menos hierárquica, mas criativa e mais profícua. Trabalhamos com dinâmicas para a longevidade empresarial  apoiando a forma como a empresa se relaciona com os seus públicos  financeira e humanamente  e isso gera muitos resultados. Hoje em dia as oportunidades são maiores pois muitas empresas estão criando áreas de sustentabilidade, que pode ser uma área isolada ou conectada a recursos humanos, comunicação ou diretamente à liderança da empresa.

Acho importante fazer um aprofundamento interno sobre o que você quer na vida, qual é o seu propósito. Se você tiver muito claro o que você quer na vida, as outras coisas vêm. Não há um caminho único para começar a trabalhar em sustentabilidade, você pode entrar numa empresa em uma outra área e, ao demonstrar sua paixão pela sustentabilidade, acabar trabalhando com esse aspecto. Na minha opinião a sustentabilidade não deveria ser uma área isolada, mas sim permear todas as áreas e práticas da empresa. Então, mais do que trabalhar nesta área especificamente, o profissional pode trazer reflexões sobre o assunto para dentro da empresa e incorporar a sustentabilidade em tudo o que a empresa faz.

 

 

James Allen é pai, tradutor, gestor de projetos socioambientais e facilitador. Ele mora em São Paulo desde 2005 e é sócio-fundador da consultoria em sustentabilidade, LAB (www.olab.com.br). Desde 2014 é professor da The School of Life, em São Paulo e no Rio.

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