Contrata-se profissionais. Exigência: amor

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Por Claudia Giudice

A última vez que entrei no Linkedin com o olhar de quem procura um trabalho foi há mais de um ano, quase dois. Eu era uma executiva recém-demitida de uma grande corporação. Tinha tido muita sorte na vida. Trabalhara 23 anos em diversas áreas de uma mesma empresa. Minha memória desses mais de oito milhares de dias era feita de amor, paixão e loucura pelo meu trabalho. Era tão feliz e realizada fazendo o que fazia, que antes do pé na bunda nunca havia me aventurado no site mundo dos empregos. Isso mesmo, nem por curiosidade pulara a cerca para ver como eram as uvas no quintal do vizinho.

Quando subi na cerca para olhar, tomei um tombo feio. Fiquei tão atordoada, que me desequilibrei. O mundo dos recursos humanos na era digital era tão diferente, tão complexo e tão exigente, que no segundo scroll me tornei uma estátua de sal. Obsoleta como uma estátua de sal. Meu currículo, minha experiência, meu títulos e diplomas eram lixo naquele mundo de “kipiais”, “esquils” e “analytics”, que eu não possuía. Faz sentido. A era digital, especialmente na área da indústria da mídia, produziu uma fenda abissal. É possível dividir a comunicação antes e depois da web e das redes sociais.  Quem sabe faz, que não sabe não tem mais tempo nem de aprender a fazer.

Com a crise e o desemprego, a urgência tornou-se ainda maior. O profissional de RH que tem uma vaga a preencher, precisa contratar apenas o  MELHOR para justificar o próprio cargo e salário. Sem querer ensinar o Pai Nosso ao vigário, acho que depois dos filtros de skills e KPAs, o foco da seleção deveria estar na relação afetiva do candidato com o seu trabalho. Posso colocar a minha mão no fogo do churrasco, mas ser um “love monday” faz toda a diferença nessa vida. São eles que tocam os projetos mais arriscados e trazem os resultados mais surpreendentes, mesmo que fracassando. São eles que te instigam e fazem com que você aprenda algo novo todos os dias. São eles que estão do seu lado quando a missão é fazer algo muito, muito chato no sábado e no domingo de sol. São eles que aceitam trabalhar numa boa naquele projeto que acontece no Carnaval. São eles que um dia você verá ocupando a presidência.

Contei com times de mais de 400 pessoas. Os apaixonados eram, seguramente, os mais felizes, os divertidos e os melhores. Sempre que eu precisava contratar alguém e ficava em dúvida entre uma trinca de talentos,  resolvia o dilema na base do amor. Levava para a firma, o mais apaixonado, aquele que perdia o fôlego quando falava sobre as sua profissão. Aquele que era capaz de sentir prazer realizando tarefas cotidianas. Para ter certeza de que se tratava do tipo certo, aplicava o cheque mate no final da entrevista. Não, eu não perguntava quantas bolinhas de tênis cabem em uma piscina. Apenas olhava no fundo dos olhos da pessoa. Se lá tinha fogo, bingo. Estava contratado.

Claudia Giudice, 50 anos, jornalista, escritora e dona de pousada na Bahia. Autora do blog e do livro A Vida Sem Crachá (Hapers Collin), foi diretora superintendente da maior editora de revistas do país e trabalhou com grandes times.

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